Comecei a minha trajetória como deputado estadual no mesmo momento em que o ex-presidente Itamar Franco, assumia o governo de Minas. Eram os idos de 1999, mas me lembro com muita clareza de todas as lutas que marcaram o seu governo e as bandeiras que defendeu no comando do Estado.
Mesmo com a pouca experiência no Parlamento, não me passou despercebido o seu esforço de negociação junto aos membros da Assembleia Legislativa sempre que acreditava ser uma causa a que melhor representasse o interesse de Minas.
E foi assim, pelo bem de Minas, que Itamar empreendeu verdadeira “cruzada” pela reversão do acordo da Cemig com os sócios norte-americanos, no qual o Estado perderia o controle sobre os principais investimentos realizados pela empresa de energia e o próprio comando da companhia.
Também mostrou disposição em assumir a defesa veemente de seus princípios nacionalistas na defesa da soberania de Furnas, diante da marcha das privatizações então vigente. Podia-se concordar ou não com o ponto de vista do ex-governador de Minas, mas nem mesmo os adversários deixaram de reconhecer a sua honradez no combate e a sua capacidade de manter a coerência com o que acreditava, mesmo quando essa defesa pareceria estar em completo descompasso com o pensamento político majoritário à época.
Para o Brasil, Itamar deixou o que talvez a História, sobretudo econômica, vá registrar no futuro como sendo o maior legado que o país recebeu desde a segunda metade do século XX. Com o lançamento do Plano Real, em 1994, o presidente Itamar Franco fincou as bases para o renascimento brasileiro como nação soberana, para a retomada do orgulho nacional, a a recuperação do sentimento de capacidade do nosso povo.
Se hoje vivemos tempos de maior prosperidade, nós devemos isso a Itamar Franco. Devemos à sua coragem de, em meio à descrença generalizada após tantos anos de desesperança, de tentativas mal-sucedidas, “peitar” um novo plano econômico, sob a batuta do recém-empossado ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.
E o que parecia ser “apenas” mais uma tentativa, foi apresentando uma solidez inusitada, sem fiar-se em golpe único, mágico, messiânico, mas estruturado sobre um planejamento de longo prazo, que se baseava no compromisso permanente com o equilíbrio das contas públicas.
Por tudo isso, a marca deixada por Itamar é indelével. Uma vida pública reta, ética, de honorabilidade ímpar. No momento em que o país discute uma reforma política em busca da construção de um novo modelo - aliás a última bandeira que vinha sendo erguida pelo nosso ex-presidente - espero que o exemplo de Itamar, do seu mais elevado espírito público possa nos inspirar na, ainda indefinida, construção desse novo marco político. E que, assim como o Plano Real, essa tentativa se mostre de um sucesso inusitado, que ela seja capaz de tornar a política brasileira mais clara, mais transparente ao eleitor, mais próxima do cidadão, assim como Itamar Franco conseguiu ser por mais de 60 anos de vida pública.